Agroecologia na mesa

Por Mariana Luquine, Dalila Lana, Leandro de Araújo e Carlos Fernando

Os moradores da região Centro-Sul de Belo Horizonte encontram, no Mercado Distrital do Cruzeiro, alimentos produzidos conforme os princípios agroecológicos e orgânicos. Desde 2019 a loja Produtos Naturais BH comercializa alimentos produzidos por famílias assentadas no programa de reforma agrária, comunidades tradicionais e agricultores familiares ligados a movimentos sociais do campo. 

O objetivo do empreendimento é gerar renda para as famílias assentadas e fortalecer a organização local, levando alimentos saudáveis, produzidos com respeito à natureza e saberes culturais, com preços justos aos cidadãos de Belo Horizonte e região metropolitana. 

O gerente da loja, Marcelo da Silva, integrante do Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA), percebeu, com a abertura da loja, a possibilidade de ajudar as famílias produtoras, criando uma ponte entre os agricultores e o consumidor final.

O empreendedor destaca dificuldades no comércio dos produtos orgânicos, como a organização da logística e o preconceito daqueles que não entendem exatamente o propósito da reforma agrária que, ao promover a redistribuição fundiária, beneficia pequenos agricultores e favorece o reconhecimento do valor social da terra. “Muitas pessoas têm uma visão equivocada de que reforma agrária é uma coisa vinda de um partido político e se esquecem que reforma agrária é um direito que está na Constituição de 88”, diz. 

No início, ele buscava mercadorias em diversos municípios de Minas Gerais, mas, a partir do momento em que o empreendimento começou a atender a mais locais, sentiu a necessidade de encontrar uma solução. Hoje, os produtos são transportados e Marcelo realiza a entrega na região metropolitana de Belo Horizonte. 

Diversidade 

A loja recebe mercadorias de cidades de Minas Gerais, como Montes Claros, Paracatu e Zona da Mata, e do Rio Grande do Sul, que fornecem os produtos derivados do Buriti, a palmeira mais abundante do país, muito encontrada nas áreas do Cerrado, Pantanal e Amazônia, da qual é extraída o óleo – que serve não apenas para cozinhar, mas também atua como protetor solar e hidratante de pele e cabelo – raspas e farinha.  

Ainda assim, os alimentos mais procurados são os cereais, como explica Wilson Rodrigo da Silva, um dos fornecedores: “Feijão e milho são produtos que a gente todo ano planta e são produzidos dependendo da nossa capacidade financeira, depende muito ano a ano”. O motivo da maior procura por estes alimentos, segundo o agricultor, é a garantia de uma procedência confiável, além de uma alimentação mais saudável, sem a utilização de agrotóxicos. 

“A loja foi uma conquista gigantesca por ser um lugar muito bem localizado. Foi muita luta para chegar onde estamos, é um passo importante para a exposição dos produtos e do potencial que nós, sem-terra, temos de produzir e alimentar nosso povo com produtos agroecológicos”, afirma sobre a importância da iniciativa para as famílias assentadas.

O óleo de Buriti funciona também como protetor solar e hidratante / Foto: Dalila Lana

Sustentabilidade

A loja foi aberta três meses antes da pandemia de Covid-19, o que provocou impacto enorme para o novo empreendedor que ainda não tinha uma clientela fixa e estava se estabelecendo. No entanto, segundo Marcelo, suas vendas foram impulsionadas, mesmo nesse momento difícil, graças ao “boca a boca” dos clientes, o que aumentou as vendas e tornou necessária a criação de um site para atender essa demanda. 

Com grande aceitação, desde então, o empreendimento se expandiu e entrega os produtos também em Nova Lima, Jardim Canadá, Casa Branca, Ibirité e Neves. Muitas pessoas tomaram conhecimento pela internet, o que gerou um movimento positivo para todo o mercado, com novos frequentadores. 

Para Marcelo, o sucesso foi consequência, além dos produtos e do atendimento de qualidade, da grande demanda por alimentos de procedência mais natural. Ele lembra que, no governo Bolsonaro, foram liberados 550 agrotóxicos, sendo que 15 deles não poderiam ser usados em produtos alimentícios. Por esse motivo, as pessoas estão tendo que mudar seu hábito alimentar, às vezes não por desejo, mas por necessidade. “A população está ficando doente”, diz Marcelo.

A loja fidelizou clientes, também, graças a sua causa. A professora e moradora da região, Maria Luiza Marques, afirma que frequenta o estabelecimento porque se preocupa com a produção livre de agrotóxicos, vinculada a uma agricultura sustentável que cuida das famílias produtoras. 

“Todo um ciclo de produção e consumo que na agroecologia faz mais sentido pra mim, pelo respeito a todo o processo, inclusive à própria natureza”, declara a professora que desenvolveu uma relação de amizade com Marcelo: “Eu venho na loja pra conversar e tirar dúvidas. Vira uma coisa de formação humana. Eu não só consumo como também aprendo”.

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